O setor da moda costuma ser associado à liberdade de expressão, criatividade e diversidade. Para muitos profissionais LGBTQIA+, o ambiente fashion é visto como um espaço seguro e acolhedor. No entanto, um relato recente mostra que, nos bastidores, o preconceito ainda se manifesta de forma explícita.

Matheus Abrahão, personal stylist da atriz Geovanna Zampanini, empreendedor e criador de projetos autorais de moda, afirma ter vivido um episódio de homofobia durante um processo seletivo para um cargo de gerência em uma grande empresa do setor.

Processo seletivo avançou, mas contratação foi interrompida

Segundo Matheus, ele avançou por todas as etapas da seleção e recebeu retornos positivos sobre sua possível contratação. A decisão, no entanto, foi interrompida de maneira inesperada.

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A justificativa, repassada informalmente por uma supervisora envolvida no processo, não estaria relacionada à sua experiência profissional, mas sim à sua orientação sexual.

De acordo com o relato, foi dito que a empresa já teria tido “experiências negativas” com pessoas homoafetivas em cargos de gerência e que essas pessoas “dariam muito trabalho”. A partir dessa visão, a decisão teria sido buscar um perfil considerado mais “adequado”, descrito como o de uma mulher heterossexual para assumir a função.

Fala preconceituosa marcou profundamente o stylist

Para Matheus, o impacto maior veio da generalização expressa na justificativa apresentada. Ele afirma:

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“Não é que uma pessoa gay dá trabalho. Pessoas dão trabalho. Cada indivíduo é diferente do outro”.

E completa:

“Usar isso como uma regra, como se todo gay fosse problemático, é injusto, raso e violento.”

Frustração e decepção com o discurso de inclusão

O episódio gerou frustração, indignação e um sentimento de impotência. Segundo Matheus, a vontade inicial foi reagir no calor do momento, mas esse nunca foi o objetivo.

“Dá vontade de expor tudo no calor do momento, mas essa nunca foi a minha intenção. O que eu quero é reflexão”, explica.

Ele destaca que o preconceito é ainda mais doloroso quando ocorre em ambientes que se posicionam publicamente como inclusivos.

“Em nenhum cenário isso deveria acontecer. Mas quando acontece dentro de um ambiente que se vende como inclusivo, a decepção é muito maior.”

Empresa de grande porte e discurso alinhado à diversidade

Matheus Abrahão

Matheus ressalta que o caso envolve uma empresa de grande porte, com forte presença no mercado e discurso institucional alinhado à diversidade.

“Falamos de grandes nomes, de grandes empresas, onde você acredita que esse tipo de pensamento já foi superado. E não foi.”

Além disso, ele afirma que circulam informações no próprio mercado sobre outros episódios envolvendo a mesma empresa.

“Isso mostra o quanto ainda existem pessoas despreparadas ocupando posições de liderança, mesmo dentro de organizações gigantes.”

Relato vira alerta sobre problemas estruturais na moda

Atualmente, Matheus segue atuando no mercado da moda por meio de seus projetos independentes, de sua loja de marca própria e do trabalho como personal stylist. Tornar pública a experiência, segundo ele, não tem caráter de ataque direto a uma empresa específica, mas sim de alerta.

“Enquanto essas histórias forem tratadas como exceção ou abafadas, elas continuam acontecendo nos bastidores.”

Debate urgente sobre diversidade e prática real

O relato reacende um debate necessário dentro da indústria da moda: a distância entre o discurso de diversidade e a prática cotidiana de inclusão, respeito e equidade.

Especialistas apontam a importância de políticas internas claras, treinamentos de liderança e canais seguros de denúncia para que ambientes corporativos se tornem, de fato, espaços seguros para todos.

Matheus Abrahão e seu Marido

Histórias como a de Matheus Abrahão mostram que o preconceito ainda encontra espaço até onde menos se espera — e que falar sobre isso, com responsabilidade, é parte essencial do processo de mudança.