Por que a última temporada de Game of Thrones gerou tantas críticas?

De final agridoce a episódios incoerentes, confira por que a temporada foi criticada de tal forma

Reprodução/HBO

Chegou ao fim! Depois de oito anos de exibição nas telas da TV, uma das séries mais comentadas dos últimos tempos, Game of Thrones (GOT), teve seu último episódio exibido na noite do domingo (19/05). Adaptação do livro de George R.R Martin, “Crônicas de Gelo e Fogo”, a série do canal HBO foi conquistando cada vez mais fãs à medida que uma nova temporada se anunciava, no decorrer dos últimos anos. Enquanto, nos EUA, por exemplo, a primeira temporada foi vista por, aproximadamente, pouco mais de 2 milhões de espectadores, a última (oitava) bateu recordes de audiência, com um público estimado em mais de 18 milhões de espectadores.

Todavia, embora muitos tenham vibrado e se emocionado ao longo dos anos, com acontecimentos inesperados durante toda a série, a última temporada, em especial o episódio final, gerou muito mais críticas do que elogios pelos fãs. Mal acabara o último episódio e já era possível ver uma extensa quantidade de comentários nas redes sociais, em que os internautas expressavam tamanha insatisfação com o desfecho da maioria dos personagens. Enquanto alguns lamentavam a monotonia e a falta de criatividade dos últimos acontecimentos, outros criticavam o desenvolvimento das cenas que, na opinião de alguns, se sucederam de forma muito rápida, como se o diretor estivesse prestes a colocar um fim a qualquer custo, além de diversos outros comentários.

Desde a sua primeira estreia, em 2011, GOT ascendeu de forma surpreendente sendo, até hoje, um dos poucos programas capazes de reunir milhões de espectadores, no mesmo horário, diante das telas da TV – considerando as infindáveis opções disponibilizadas na internet, atualmente, que permitem ao público assistir o que desejar no horário preferido. Talvez a série encerre uma era histórica marcada pela predominância da TV, considerando o público já consolidado desde o primeiro episódio.

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Mas o que justifica tamanho sucesso? Muitas explicações já foram dadas, mas um dos fatores plausíveis é o próprio contexto de GOT em si. Ao contrário da maioria das produções televisivas e cinematográficas, que poupam os mocinhos e matam os vilões, GOT não poupou personagens importantes e queridos pelo público que morreram da forma mais brutal e inesperada possível. Embora seja considerada uma fantasia medieval, poderíamos dizer que a série trouxe realismo às cenas pelo desfecho que proporcionou a muitos personagens. Ninguém estava a salvo, o que sempre acabava gerando apreensão no público e talvez, seja, justamente, tal fator que acabou por contribuir para o sucesso da série.

Todavia, contrariando as últimas sete temporadas, a oitava temporada de GOT, embora tenha causado certa apreensão no público, optou por um desfecho mais ameno, em que os principais personagens saíram ilesos no final. A começar pelo terceiro episódio, que exibiu uma das batalhas mais esperadas de toda a série: a luta contra os caminhantes brancos e o temido Rei da Noite. Pelo histórico de GOT, muitos espectadores já se preparavam para dar adeus a personagens queridos, mas, não foi o que ocorreu, o bem venceu o mal e nenhum deles foi morto. Classificado por alguns como algo previsível, o episódio também foi criticado pelo rápido fim dado ao Rei da Noite, já que se tratava de um dos papéis mais poderosos de toda a série, o qual era muito temido pelas demais personagens desde a primeira temporada.

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O Prof. Dr. Jack Brandão, diretor do Centro de Estudos Imagéticos CONDÉS-FOTOS Imago Lab, que estuda e pesquisa imagens há mais de 30 anos, comenta a respeito: “Nós somos seres iconotrópicos; desde pequenos somos cercados de imagens por todos os lados e necessitamos consumi-las mais e mais. À medida que esse consumo amplia, vamos estabelecendo diversas construções e relações imagéticas que se fortalecem graças ao nosso acervo de imagens que vamos adquirindo ao longo da vida”. Brandão chama tal acervo de iconofotológico e ressalta que ele é essencial para as construções imagéticas que fazemos. “Essas construções não acontecem de um dia para o outro, elas são resultado de um processo que vai se consolidando ao longo do tempo. Por isso mesmo, quanto maior for esse processo de construção, mais difícil será sua desconstrução”.

Baseando-se nas considerações do pesquisador, podemos fazer, então, uma análise não somente das críticas ao desfecho do Rei da Noite, como também das críticas direcionadas para a morte das personagens Cersei e Daenerys que, na visão de muitos, aconteceram de forma rápida e simplória. Todas as três personagens foram construídas ao longo de quase uma década e, conforme cada temporada se sucedia, era mais nítido o poder de cada uma. Sendo assim, o público foi criando expectativas para um desfecho que ocorresse à altura da construção de tais personagens, de modo que cada um morresse após momentos de muita tensão diante das dificuldades em mata-los.


Não foi o que houve. O Rei da Noite foi morto em segundos pela Arya, que lhe cravou uma adaga, sem ao menos uma luta, a Rainha Cersei, que chegou a explodir o Grande Septo na sexta temporada, matando a todos que lá estavam, nada fez no penúltimo episódio, enquanto Daenerys queimava Porto Real com seu dragão, até este destruir o castelo de Cersei e ela morrer soterrada.

Quanto a Daenerys, que foi taxada de louca por queimar toda Porto REAL após a rendição dos inimigos – embora haja tal coerência em seu ato, diante da sua obsessão em tomar o Trono de Ferro, a qual foi ganhando força ao longo das temporadas –, muitos aguardavam que ela fosse morta pelo seu amante Jon Snow. Todavia, não da forma como se sucedeu: ele simplesmente fingiu lealdade a ela e a apunhalou enquanto a beijava. Muitos viram incoerência em tal cena, considerando que ela estava ciente de que Snow também teria direito ao trono e já estava chateada com ele, por ter contado a respeito para suas irmãs.

Enfim, todas as reações a tais acontecimentos demonstram como, por mais que a desconstrução possa ocorrer, ela precisa ser muito bem trabalhada, pois, se não tiver à altura da construção imagética, jamais repercutirá o mesmo efeito. Ainda, segundo a análise do professor, podemos entender tal afirmação também nas críticas ao fato do personagem Bran ter se tornado o Rei dos Sete Reinos. Muitos espectadores esperavam que Jon Snow assumisse tal posto, o que não ocorreu, até mesmo pela própria construção feita desde o começo da série com todos os indícios que o levavam a tal destino. Mais uma vez a desconstrução ocorrida, interrompendo toda uma trajetória ao longo da série, não agradou a muitos.

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Também podemos dizer que essa última temporada foi marcada pelo final feliz, já que, embora Snow não tenha se tornado rei, as principais personagens da família Stark tiveram um desfecho satisfatório. Mais uma vez, a série descontrói a sucessão de desfechos trágicos que prevaleceram em todas as temporadas anteriores. Para o Prof. Dr. Jack Brandão a escolha por tal final pode estar relacionada ao fato de como os protagonistas já conquistaram o público durante todo esse tempo. “Muitas vezes, nós nos projetamos no protagonista, torcemos por ele, sofremos com ele e nos emocionamos com sua vitória. Isso porque, como em uma leitura de um romance, por exemplo, abandonamos nosso próprio ‘eu’ para viver o eu do narrador”.

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De acordo com o pesquisador, algo semelhante não vemos, por exemplo, nos noticiários, em que devido ao excesso de imagens trágicas, perdemos inclusive a compaixão. “O mundo real já está repleto de problemas e não há, infelizmente, o que fazer… Não se pode, porém, dizer o mesmo do mundo fictício, nele sempre há espaço para um final feliz; torna-se, portanto, nossa válvula de escape do mundo real”, ressalta Brandão.

Outra crítica levantada por muitos fãs foi o fato da série ter seguido o próprio caminho, não sendo completamente fiel aos livros, embora ainda faltem duas obras a serem lançadas. Segundo Brandão, é praticamente impossível que longas baseados em filmes agradem a todos os seus espectadores. “Quando nós lemos uma obra, nós a interpretamos com base em nosso próprio acervo iconofotológico, ou seja, trazemos nossas experiências para aquele momento. Ocorre então uma quebra da relação sujeito-autor-objeto, pois, a partir de então, o leitor passa a ser o sujeito da obra. Dessa forma, um mesmo livro pode gerar diversas interpretações distintas em seus leitores, incluindo o diretor do filme” ressalta o pesquisador.

Para o professor, ao trazer suas experiências para a obra, cada leitor faz uma construção imagética diferente. Isso sem contar que, além do acervo do diretor, ele pode acrescentar elementos externos propositadamente com o intuito de atingir o público por meio do filme”, ressalta.

Mas nem só de críticas se constituíram a análise do último episódio que contou com momentos memoráveis, talvez de toda a série, como a cena em que Drogo, o dragão de Danaerys, ao vê-la morta, ao invés de cuspir fogo em Jon Snow que a matara, destrói o Trono de Ferro ciente de que o que a matou foi a ganância pelo poder que permeou toda a série. Um momento aclamando pela maioria.

Enfim, problemas e críticas à parte, GOT já é considerada uma das séries que fez história durante oito anos de sua exibição ao trazer temas tão fortes e ao mesmo tempo presentes na sociedade. Certamente contribuiu para aprimorar e aguçar a visão crítica de muitos. Gostando ou não, é impossível sair ileso a GOT.

Artigo produzido por Mariana Mascarenhas– jornalista, mestra em Ciências Humanas, comentarista de TV, Teatro e Cinema

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